A um coração
A um coração
Naqueles tempos
Caminhava perto das ondas de praia
que gelam pela primeira vez
os dedos ferventes de areia
Naqueles tempos
Caminhava sobre as águas frias de chuva
salvando formigas e pombas
das tempestades grandiosas
Naqueles tempos
Caminhava da cama bagunçada de sono
ao céu encontrado entre janelas
para bradar um bom dia à vida
Naqueles tempos
Tudo era de verdade
Um comentário?
São episódeos. Mas não somente descrevem momentos. Descrevem também uma vida, ou, pelo menos uma parte dela. Queria colocar um pouco de menos, uma parte dela. Queria colocar um pouco de minha saudade nesse texto (agora sim, por essas linhas). Saudade da euforia de ir a primeira vez à praia e ficar surpreso com o quanto a água do mar é gelada comparada à areia escaldante. Saudade das noites e tardes de chuva forte que me faziam pensar nas casinhas das formigas e nos ninhos dos pombos tão desprotegidos. Saudade da felicidade de acordar num dia de céu sem núvens; incrivelmente azul. De um azul tão puro que deveria merecer todos os sorrisos de bom dia. E também a saudade de quando rios eram rios, e montanhas eram montanhas. Sorrisos eram sorrisos. E lágrimas significavam tristeza. Mas hoje é tudo menos simples (e não mais complexo). Os rios são aglomerados de moléculas que se ligam por pontes imaginárias. As montanhas não passam de pilhas e pilhas de pó. Queria voltar a ter os rios. E mais uma vez olhar com espanto e admiração para o horizonte rasgando o céu. Sem questionar porque estou sorrindo. Sem me perguntar se valem as lágrimas.
Segundo texto de "Em fim o tempo"
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