Credulidade



Sobre o Texto:

Podemos crer racionalmente na bíblia? Por aqui discutimos essa possibilidade nas pautas do “arrazoemos juntos" (Isaías 1: 18–20), método divino de construção da fé. Não precisamos crer cegamente, existe um caminho lógico pelo qual podemos nos enveredar e encontrar a Deus. Entretanto, não espere que esgotamos o assunto. Apenas lascas caíram dessa tentativa de escavar a verdade.

Credulidade


O problema de ordem axiológica do texto bíblico compromete-se com a questão da autoafirmação. A bíblia dizer que é inspirado não a torna inspirada, mas se for, tomando a priori um autor que deseja se revelar, obrigatoriamente dirá ser inspirada (não há como contestar um texto que se autoproclama, é pura lógica). O problema, entretanto, muda de caráter; não se consuma. Agora lidaremos com o quesito autoridade. Questão de regressão ad infinitum, uma vez que, alegoricamente, um juiz somente o é mediante autoridade exterior; o estado. Quem poderia exercer autoridade ao próprio criador? A resposta é simples: ninguém. Questão de lógica e bom senso. Claro que, até aqui, não há evidência da veracidade do texto. Há apenas um exercício mental para demonstrar que a conversa se encerra no campo teórico. Não chegaremos a lugar nenhum se lutarmos sem fatos. Mas continuemos, temos ainda Aristóteles para discutir. E verás sua contribuição para nosso diálogo. Bem dito seja o silogismo🙌. A grande parte dos leitores devem conhecê-lo. Conjunto de proposições, geralmente duas, que, se verdadeiras, tornam a terceira também verdadeira. Utilizaremos do brio do filósofo para esclarecer o porquê é lógico considerar a bíblia como inspirada.

Se Deus existe, milagres podem acontecer.

Se o novo testamento for historicamente confiável, os milagres lá relatados ocorreram de fato.

Gostaria somente de concatenar as implicações das proposições acima, caso sejam verdadeiras. Primeiro, Jesus é Deus. Segundo, o que Jesus ensinou é a palavra de Deus. Por fim, a bíblia é a palavra de Deus.

Evidenciar as premissas resultará em confiança, ao menos parcial, naquilo que estudaremos em diante. Quanto à possibilidade da existência de Deus, necessitaríamos de uma mesa da Brahma e três homens experientes na arte do boteco para discutirmos. Filosofia de rua. Tão pura quanto as frias tintas da academia. Quero dizer que não há porque nos atentarmos a provar logicamente Deus. Tarefa difícil. Creio eu impossível, pois é experiencia pessoal. Se Ele existe te busca, é caso de fugitivo. Mas difere das fugas de prisão. Nestas, foges da pena. Naquela, foges do perdão. Já pensou? O criminoso correr loucamente da absolvição? Esconder, se camuflar e praguejar contra seu terrível perseguidor. Acusando injusto, autoritário, déspota e cruel. Quando tudo que quer é tirá-lo da ruína. Mas em fim. Voltemos ao tema, do contrário gastarei vosso tempo precioso com discussões destoantes. Resta-nos trabalhar com a historicidade do novo testamento. A segunda premissa de nosso silogismo requer um estudo historiográfico e textual. Como não sou especialista no assunto, sugiro invocar quem é. Não uso argumento por autoridade, longe disso, apenas ponho na mesa opiniões. Demonstrando que no mundo das palavras difíceis existem pessoas que confiam na veracidade da Bíblia. Injustiça seria desconsiderar a opinião do colega somente porque é diferente da tua, concorda? Pois bem! Geza Vermes foi um acadêmico britânico, especialista nas escrituras bíblicas - era judeu; não cria na ressurreição de Jesus-, acreditava nos relatos do túmulo vazio e no testemunho das mulheres que o viram. Sir William Ramsay, arqueólogo e especialista em história grego-romana, buscou provar a inveracidade do texto de Lucas. Clássica história de crente. Cavou fundo acusando de seca e encontrou manancial. Além de passar a crer, pôs o texto de Lucas e o livro Atos como um dos mais bem documentados da humanidade. Bruce Matzger, uma das maiores autoridades em crítica textual, tem uma opinião muito bem formada: “Podemos confiar imensamente na fidelidade do material que chegou até nós [do Novo Testamento], principalmente se o compararmos a qualquer outra obra literária antiga”¹. Veja bem, existe um motivo para preferirem ensinar grego com os textos de João. Não há escritos mais confiáveis para aprender sobre a antiga língua. O mesmo ocorre com o aramaico, hebraico e outras formas de grego (se não koiné). A investigação dos textos antigos é cargo da chamada crítica textual. Peço licença agora para mudar o tom. Precisaremos de outro estilo para continuar a elucidação.

Imaginemos a cena. Um copista empenhado em seu trabalho está a correr a pena pelo papiro. Ocorre um deslize, um pequeno deslize. No luga de escrever “João está chorando” ele escreve “Schwarzenegger está chorando”. Erro de principiante, dê um desconto. E para problematizar ainda mais a questão, vamos imaginar que a distância do copista para a obra originalmente escrita é de… vejamos, mil anos. E temos somente seu trabalho e mais um para comparar. Na comparação percebe-se que exite uma diferença entre os textos. Como saber qual é fiel? Uma vez que temos apenas duas cópias, e uma delas está “Schwarzenegger” e a outra “João”? Então… nesse cenário não poderíamos saber. Afinal temos apenas duas cópias. A comparação bibliográfica é um pilar da crítica. Cersar, Platão, Aristóteles, Tucídides, Heródoto, Sófocles, Tácito e Plínio. Os clássicos ocidentais. Nenhum deles tem mais do que cem cópias. E todos têm um hiato maior que setecentos e cinquenta anos. Vide Aristóteles, hiato de mil e quatrocentos anos, e restam cinco cópias. Lastimável para a veracidade do texto. Entretanto, nenhum deles é considerado infiel. Parcialidade? Creio que sim. A bíblia é apontada com adulterada. Vamos à comparação. Somente dos textos do novo testamento temos cinco mil e oitocentas cópias. O evangelho de João foi escrito no ano noventa depois de Cristo; “John Rylands” é o manuscrito mais antigo copiado do evangelho de João, datado de cento e trinta depois de Cristo. Isso mesmo, hiato de apenas quarenta anos. E mais: o Códex Sinaiticus é o texto antigo mais distante da obra original – os evangelhos e cartas –, mas possui um hiato de duzentos e noventa anos (foi escrito em 350 d.C). Vamos ser justos, temos também um livro surpreendentemente bem documentado dos clássicos antigos. Escrito por Homero, a Ilíada. Possui incríveis mil e setecentos manuscritos. Em todas as suas linhas apenas setecentas e sessenta e quatro são dúbias. Dizem os críticos que noventa e cinco por cento de toda a obra é plenamente confiável. Realmente impressionante. Mas o pódio é incontestável. Me perdoe a sinceridade, mas não há comparação. De todas as linhas do novo testamento, quarenta são contestáveis. Isso representa noventa e nove por cento do conjunto de textos. E tais linhas não trazem comprometimento para a doutrina ou compreensão. Isso tudo graças ao enorme acervo de manuscritos existentes da bíblia utilizadas comparativamente. Falamos muito do novo testamento. Permita-me passar o olho no antigo. Não vai demorar. Tempo de leitura previsto? Um minuto. Nada mais.

O melhor que tínhamos era datado de novecentos depois de Cristo. Uma tristeza para os crentes. Mil trezentos e cinquenta anos separava-o do final do cânon antigo. Claro, não havia o que dizer em defesa da veracidade. Restava-nos a resignação. Continuar o velho discurso de fé. E esse é o momento da leitura que todo mundo já sabe o que virá pela frente; o momento esperado do “mas”, do “entretanto” do “todavia” ou outra conjunção adversativa qualquer. O momento da reviravolta. O clímax esperado. Pois em março de 1947, nas cavernas de Qumrán, foram encontrados papiros. Muitos papiros. E lá continha praticamente todo o antigo testamento datado de até 350 anos antes de Cristo. Comparando os textos é impressionante a correspondência. Os mil e trezentos anos não foram capazes de alterar nada. Queda de reis? Modismos? Mudanças de pensamentos? Colonização? Filosofias talhando a mente e se refletindo na escrita? Nada disso foi capaz de alterar a bíblia. Verifique por você mesmo. Até o CHAT GPT te mostra. Pede para ele: “CHAT compare dos textos da caverna de Qumrán com os atuais”. “Caramba e não é que é verdade?” Pois é, eu te falei.

Estamos perto do fim. E para terminar, e dar descanso às cucas, vamos falar do teste interno. Um princípio da crítica textual, usado para determinar se o documento seria ou não confiável, diferencia-se dos outros princípios, pois, agora, se preocupa com a fonte. Esclareço: imprecisões históricas, contradições internas, desconexão visível, tudo isso poderia declarar a infidelidade do texto; apontando para a origem; o momento em que o texto foi escrito. E, nesse caso, seguem os sábios da crítica a máxima de Aristóteles: “dar ao documento o benefício da dúvida”. “Deve-se ouvir as afirmações do documento em análise e não presumir fraude ou erro, ao menos que o autor se desqualifique por contradições ou imprecisões factuais conhecidas” ². Essa frase é quase um convite. “Experimente ler e tome suas conclusões”. Um convite a deixar o pré + conceito. Ouvimos muito por ai acerca desse livro, ele é relevante. Faz diferença na humanidade. Compare Nietzsche jogado às prisões e presídios com a bíblia. O super-homem não tira ninguém do mundo criminoso, não transforma vidas. Darwin, Freud, Russell, Hawking eram gênios? Com toda certeza. Quebraram paradigmas. Pena que não é de hoje a loucura do evangelho, “porventura, não tornou Deus, louca a sabedoria deste mundo?”. Será que já não era sabido na grande Grécia, sustentáculo das ciências deste mundo, que “Cristo crucificado é escândalo para judeus e loucura para os gregos?”. Ao contrário da marchar do mundo, em todas as eras – pois não penses o iluminismo ser o ponto de partida para a contestação da divindade, leiga afirmação – “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”. Pode ser um surto coletivo? Claro, afinal temos todos um pouco de loucura. Mas se não for? Sacrificarias milhões de mentes pensantes jogando-as à fossa da ignorância? Pois eles creem, muitos creem. E virão outros a crer. A sofrer, defender e até mesmo morrer por Sua vontade.

1. Bruce Metzger, citado por Lee Strobel, Em defesa de Cristo: um Jornalista Ex-Ateu investiga as Provas da Existência de Cristo (São Paulo: Editoda Vida, 2001).
2. John Warwick Montgomery

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