Fossilização


Fossilização


O tempo
passa.

Engrossa o sangue,
cansam os olhos,
envilecem os fios.

E o coração reage.
Indaga.

Já foram-se os tempos!
E quais tempos nos restam?

                                  [Nos restam]
Tempos de casarão abandonado,
construído em cinzas restantes,
e está coberto de hera.

O tempo
passa.

Uma história

História de um homem gasto pelos sóis e chuvas. Possuidor de calos e cicatrizes conquistados por uma vida de trabalhos, responsabilidades, poucos lazeres e ainda menos amores. Exceto o amor de sua mulher, boa moça que lhe amava de toda alma. Esse senhor construiu com suas próprias mãos sua casa, lugar que passaria, dali em diante, toda sua vida. Esse senhor também fez seus próprios móveis, que mobiliaram sua casa por toda sua vida. Esse senhor ensinou seus ofícios aos filhos, e os viu trabalhar durante toda sua vida. 

Até o último segundo exerceu seu dever. Era sagrado. Dívida eterna com a providência. E envelheceu. O tempo passou. Vieram os pesos naturais. Aquilo que se espera encontrar em carne velha. Mas isso foi demais para ele. Olhava a casa erguida a sua frente, tentando recordar de quem era. Passava os dedos sobre a madeira da mesa, anelando sobre o artista que a fizera. Abençoava os filhos num exercício mecânico. Anestesiado no conforto torturante do pós-guerra. 

Se descuidou. 

E nos dias de sua angústia não tinha pelo que viver. Os ossos ficaram fracos e mal suportavam o próprio peso. Havia cumprido seu dever, agora era peso morto. De investimento virou despesa. 

E tudo que viam seus olhos cansados eram cinzas. Mas não se engane; a lenda estava incompleta; a ressurreição não veio. Restou permanecer, intacto, de face esculpida e corpo tomado pelo vagaroso crescimento da hera. Não recordava mais dos primeiros tempos. Nem esperava os próximos. 

Essa história acaba aqui, de repente e sem final. Com a imagem escultural de um homem talhado em rocha.

Quarto texto de "Em fim o tempo"



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